13 de jun de 2009

A fonte e a flor

Vicente de Carvalho 

Deixa-me, fonte, dizia,
A flor, tonta de terror,
E a fonte, rápida e fria,
Cantava, levando a flor.

Deixa-me, deixa-me, fonte,
Dizia a flor, a chorar.
Eu fui nascida no monte,
Não me leves para o mar!

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
por sobre a areia corria,
Corria, levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu,
Ai, claras gotas de orvalho,
Caídas do azul do céu!"

Chorava a flor e gemia
Branca, branca de terror
E a fonte sonora e fria
Rolava levando a flor.

Adeus sombras das ramadas
Cantigas do rouxinol
Ai festas das madrugadas
Doçuras do pôr-do-sol.

"Carícias das brisas leves
Que abrem rasgões de luar,
Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!"

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...

Nenhum comentário:

Postar um comentário