23 de ago de 2009

Eles voltam

André Laurentino

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo

Os fumantes voltarão. Não se anime, caro leitor, a comemorar seu ar mais puro. Os fumantes voltarão.

Antes, eles não tinham causa ou método que unisse a classe. Era cada um por si, baforando sem união nem sentido do coletivo (palavra bonita, coletivo. Está se usando). Agora, encontraram um inimigo comum: o teto. Onde tem teto, não tem fumante. Até marquise os espanta. Em lugar de dissipar, a medida deu agenda ao grupo. Topa-se com eles nas ruas e calçadas, tramando como locomotivas urgentes.
Em suas reuniões relâmpago, têm a chance de debater os ataques à categoria, comentar esta segregação aplaudida nos jornais. E percebem o impacto que suas escapadelas têm nas empresas onde trabalham. Eis aí o principal aliado dos fumantes: a força do capital.

Podem unir-se às lavanderias, que perdem parte do faturamento com nossas roupas livres da fumaça, cheirando bem por dias a fio. Todo um segmento comercial ameaçado. Um terno frequenta a semana inteira de festas, reuniões e barzinhos sem ir para o tanque. Lavanderias no prejuízo: o primeiro aliado dos fumantes.

O segundo é Alberto, do RH. Um rapaz ambicioso, magrinho, que já está calculando quanto as empresas perdem com seus fumantes descendo até a rua durante o dia. Tomando elevadores lentos, enfrentando filas de fumódromos. Os cálculos de Alberto estão avançados, em breve a FIESP vai receber o dossiê do dinheiro que o mercado queima tirando funcionários que fumam dos seus postos de trabalho. “Dinheiro que o mercado queima” e “postos de trabalho” são expressões do Alberto. Esse vai longe.

Outra possibilidade descoberta pelos fumantes é o ramo imobiliário: andares baixos para aluguel comercial. “Vão aumentar de preço” diz um companheiro empolgado. “Antes só andares altos eram valorizados. Agora os de baixo também serão: dá pra ir fumar pela escada”. “Escada?”, grita outro. “Com quê fôlego?” O grupo logo rejeita a ideia do companheiro, um pelego de apenas dois cigarros por dia.

Os fumantes também se sentem mais protegidos da gripe suína: ficam menos tempo em ambientes fechados. O problema é que já aparecem hipocondríacos se passando por fumantes apenas para saírem do ar viciado dos escritórios. O grupo já aprendeu a identificá-los nos encontros: usam alquinho o tempo todo e o cigarro está quase sempre apagado. São expulsos a baforadas cancerígenas, pois podem espalhar dados sigilosos dos planos. E aí o mundo estaria de vez nas mãos dos não-fumantes. Também, com tantos dedos livres.

Publicado por André Laurentino
http://andrelaurentino.blogspot.com

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