12 de dez de 2011

Pelo telefone

Carlos Drumond de Andrade

Tem 17 anos e um livro inédito. Telefona pedindo um encontro para me mostrar sua criação. A voz é de esperança ardente. E mesmo de confiança.

- Você não pode esperar um pouco?
- Quantos dias?
- Não estou falando em dias. Falo em três, quatro anos pelo menos.
- Tudo isso para o senhor me receber? Ah, é dose.
- Não, é para escrever o livro. E mais dois ou três para publicá-lo.
- Mas ele já está escrito. Só falta publicar.

- Sim, mas provavelmente quando você tiver 21 anos vai-se arrepender de tê-lo publicado.
- O senhor está julgando meu livro antes de ter visto ao menos a cara dele?
- Estou julgando o livrinho que escrevi na sua idade, e que felizmente se perdeu numa editora carioca.
- E se o meu livro for melhor do que o seu?
- É possível, e desejo que seja. Mas não custa esperar um pouco, e nesse meio tempo você irá publicando seus versos – pois seu livro é de versos, aposto?
- Acertou.
- É fácil acertar. Irá publicando suas coisas em jornais e revistas e se tornando mais conhecido. Depois, então, partirá para o livro. Livro não tem pressa. Ou não deve ter, por precaução.
- Que jornais? Que revistas? Não conheço ninguém.
- procure conhecer, indague, mexa-se. Posso lhe dar alguns endereços. Por mais que se diga que a imprensa se industrializou, há sempre um caderno, uma coluna, um canto de página, aqui, ali, pelo Brasil afora, disposto a acolher os novos. E quem tem talento encontra um pouquinho de espaço. Se até quem não o tem encontra...
- Mas o livro já está pronto. Que é que vou fazer com ele?
- Nada. Guarde na gaveta. Deixe esfriar. Experimente a sensação de estrear num jornalzinho de bairro, numa revista de estudantes. Curta bem o gosto de ver seu nome impresso pela primeira vez, assinando umas coisinhas que o seu pessoal, parentes e amigos, comentará. É bom, posso jurar para você. É gostoso.
- Prefiro dar uma de livro, logo de saída.
- Então inscreva-se em concurso, um desses vários concursos que hoje oferecem tantas possibilidades aos jovens. Vocês não podem queixar-se: tanto governos estaduais como o federal oferecem prêmios consideráveis a autores inéditos. Até empresas privadas fazem isto. É uma coisa que não existia no meu tempo de rapaz.
- E quem garante que eu vou ganhar o prêmio?
- E quem garante que não vai ganhar? Não duvide dos julgadores, já que você não duvida de si mesmo. E tem mais: o Instituto Nacional do Livro que financia parte da edição da obra, se esta for julgada merecedora. Na realidade, nunca o autor jovem e desconhecido teve tanta chance de aparecer no Brasil de hoje. Mas você tem de se inscrever e competir.
- Por que um editor, examinando o meu livro, independente dessa engrenagem toda, não pode publicá-lo?
- Porque o editor vive de aplicar dinheiro em livros que sejam vendáveis e dêem lucro, e não pode editar todos os jovens desconhecidos de 17 anos e que certamente não terão leitores além dos pais, dos tios e da namorada. Sabe quanto custa a produção de um livro?
- Não faço idéia.
- Se o seu pai não arrisca dinheiro para editar o pimpolho, não é justo que você espere isto de um editor, que nem é seu parente.
- Tudo isso que o senhor falou pode estar certo e eu não duvido. Mas escute uma coisa. Se por acaso eu for um jovem de 17 anos diferente dos outros jovens de 17 anos que escrevem besteiras; se eu tiver dentro de mim uma coisa chamada gênio – vamos admitir a hipótese, por que não? – tenho de ficar na fila dos concorrentes que sei lá se são apadrinhados... tenho de suar frio batendo à porta dos editores para convencer afinal um deles que é bom negócio editar um bacana fora de série? O senhor acha isso justo, acha legal?
- Meu filho, aí o caso muda de figura. Eu não tenho aparelhagem para identificar os gênios. E não sou editor, graças a Deus, porque, com a minha tendência a acreditar em tudo, acabaria falido ao fim de três meses de contato com genialidades.
- O senhor é tão irônico! Quer dizer que não vai fazer nada por mim?
- Como, fazer?
- pelo menos ler o meu livro. São só 250 poemas, uns curtos, outros maiorzinhos, sobre a nova mulher cósmica, concepção original minha, um estrondo. Ler e... dar opinião, falar com o Sr. José Olympio, né? Não quero mais nada, so isso. O resto, deixe com ele.

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